Ébola: Uma ameaça antiga que continua a testar os sistemas de saúde

Os surtos de Ébola demonstram que a resposta a doenças de elevada consequência depende de uma abordagem integrada e intersetorial, baseada na vigilância, na preparação e na cooperação internacional.

Tema: Ameaças biológicas | Público-alvo: Comunidade em geral

 

Quase 50 anos após a identificação do primeiro surto, o vírus Ébola continua a representar uma das principais ameaças biológicas à saúde pública global. A ocorrência de novos surtos demonstra que a preparação para doenças infecciosas de grande impacto na sociedade, depende não apenas da capacidade clínica, mas também de sistemas robustos de vigilância, diagnóstico, comunicação de risco e cooperação internacional.

O atual surto de Ébola, pelo vírus Bundibugyo (BVD), na República Democrática do Congo (RDC) e no Uganda, evidencia os desafios associados à resposta a estes eventos de origem zoonótica.

 

O vírus Ébola

A doença por vírus Ébola é uma infeção viral grave, frequentemente fatal, causada por vírus do género Orthoebolavirus. Atualmente reconhecem-se várias espécies de ebolavírus associadas a doença humana em África, incluindo os vírus Zaire, Sudão, Bundibugyo e Taï Forest. A transmissão ocorre através do contacto direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas ou animais infetados, bem como com objetos contaminados. Os surtos iniciam-se geralmente após uma passagem do vírus de animais para humanos, seguindo-se posteriormente a transmissão entre pessoas. Os morcegos frugívoros continuam a ser considerados os reservatórios mais prováveis dos ebolavírus.

 

Porque continua a ser difícil controlar surtos?

O controlo dos surtos de Ébola continua a ser um desafio devido à interação entre fatores biológicos, sociais e operacionais. O atual surto causado pelo vírus Bundibugyo (BDBV) demonstra como as características do próprio agente, associadas às condições onde ocorre a transmissão, podem dificultar uma resposta rápida e eficaz. Apesar dos avanços no conhecimento e controlo da doença, atualmente não existe uma terapêutica antiviral específica licenciada para o vírus Bundibugyo, sendo o tratamento baseado principalmente em cuidados de suporte. Além disso, a presença de reservatórios naturais em animais selvagens pode favorecer novos eventos de transmissão entre animais e humanos, mantendo o risco de surtos emergentes. Quando estes eventos ocorrem em regiões afetadas por conflitos ou com sistemas de saúde fragilizados, surgem dificuldades adicionais no acesso às comunidades, na deteção precoce de casos, no rastreio de contactos e na implementação das medidas de controlo. Estas limitações são ainda agravadas pela elevada mobilidade populacional e pela circulação transfronteiriça, que podem facilitar a introdução do vírus em novas áreas geográficas e exigem uma coordenação contínua entre países. Destaca-se também a dimensão zoonótica do surto e a importância de uma abordagem One Health Security, reforçando a necessidade de fortalecer a vigilância intersectorial, incluindo a monitorização ambiental, da vida selvagem e a prevenção de novas vias de transmissão.

 

Uma resposta integrada para controlar surtos e reduzir riscos futuros

A resposta a surtos de Ébola exige uma abordagem coordenada entre autoridades nacionais, organizações internacionais e comunidade, combinando vigilância epidemiológica, diagnóstico rápido, prevenção da infeção e comunicação de risco. As autoridades de saúde nacionais, com o apoio dos Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC), da Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH) e de outros parceiros internacionais, têm implementado um conjunto de medidas para reforçar a resposta ao surto, incluindo o rastreio de contactos, o fortalecimento das capacidades laboratoriais, a proteção dos profissionais de saúde e a cooperação transfronteiriça. A Signature Initiative to Mitigate Biological Threats in Africa (SIMBA) apoia a resposta intersectorial pela integração da segurança biológica na resposta a surtos de elevada consequência, promovendo a gestão segura de amostras biológicas, o fortalecimento das capacidades laboratoriais e a formação em gestão do risco biológico. Esta abordagem contribui não só para controlar surtos atuais, mas também para fortalecer a preparação e a resiliência dos sistemas de saúde perante futuras ameaças biológicas complexas.